sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A Noite em que eu virei um artefato tecnológico

Eu cheguei para o exame cansada antes mesmo de deitar. Chuva grossa, dessas que parecem cair com intenção, e eu atravessando a cidade com travesseiros embrulhados num plástico de TV, porque improviso também é uma forma de inteligência quando o mundo desaba. Quando entrei, preenchi ficha, entreguei token, e senti aquele alívio falso de quem acha que o pior passou. Não tinha passado. Estava só começando.


Às nove, nove e meia, eu já era outra coisa. Mais de trinta eletrodos colados no meu corpo com uma cera fria e pegajosa, presos com fita em lugares que a gente só lembra que existem quando começam a coçar. Coçava embaixo do seio. Coçava atrás da orelha direita. Coçava do jeito proibido, aquele que você não pode resolver com um simples movimento de mão. Eu virei um mapa de impulsos reprimidos.


O quarto não era totalmente escuro, e ainda bem. Havia luzinhas vermelhas da câmera noturna piscando como olhos atentos, lembrando que eu estava sendo observada enquanto tentava fazer algo tão íntimo quanto dormir. O ar-condicionado central era impiedoso. Gelado. Direto na minha cara. Não dava para regular. Não podia suar. Não podia pedir trégua. Então me cobri como deu. Cobertor, lençol, mais um trem qualquer jogado por cima. Um burrito humano tentando sobreviver à Antártida hospitalar.


Demorei para colocar o protetor auricular porque o frio me distraía. Quando coloquei, foi como fechar uma porta dentro da cabeça. Um pequeno triunfo. Mas o corpo não colaborava. O colchão era macio demais, traiçoeiro. Eu não encontrava posição. Virei. Desvirei. Os fios puxavam. O sono vinha em bocejos tão profundos que meus olhos lacrimejavam. O corpo pedia descanso, mas o cérebro dizia não. Levei mais de duas horas para conseguir dormir. Duas horas de negociação silenciosa comigo mesma.


Quando finalmente tentei me entregar, veio a vontade de fazer xixi. Chamei pela campainha. A moça veio com a comadre e me orientou a fazer uma abaixadinha do lado da cama. Eu sabia que não era o melhor para mim. Meu corpo funciona melhor deitada. Mas tentei. Ela me interrompeu. Uma vez. Duas. Três. Não deu tempo. Não saiu xixi direito. Saiu pingo. E aí o pânico. Meu corpo decidiu que aquela era a hora errada de tentar evacuar. Entrei em desespero, tentando segurar algo que não negocia.


Expliquei. Pedi banheiro. Não era a mesma moça que tinha colado os eletrodos com carinho. Essa falava de fios desconectando, de sistema que talvez não reconectasse. Eu pensei em mandar tudo para o inferno. Não mandei. Fui ao banheiro. Fiz o que precisava. Voltei. Com raiva. Com alívio. Com dignidade ferida, mas preservada.


Aproveitei a ida para pegar o protetor auricular que eu tinha esquecido longe da cama. Coloquei no ouvido para não ouvir mais ninguém. Deitei. Alguém disse que já vinha. Não veio. Agradeci em silêncio. Virei para o lado. E então dormi.


Ou quase.


O que veio depois foi estranho. Comecei a ter solavancos. Eu via o quarto. Via a câmera. Tudo igual. Mas era como se estivesse numa versão fantasmagórica do mesmo lugar. Outra camada da realidade. Eu saía e voltava. Três, quatro vezes. Quando voltava, acordava de verdade e olhava ao redor. Era idêntico ao que eu tinha acabado de ver. Fiquei na dúvida se era apneia ou desdobramento astral. Hoje sei que era o cérebro me puxando de volta porque eu não estava respirando direito. Na hora, só era assustador.


Dormia um pouco. Acordava. A vontade de fazer xixi voltou, dessa vez real. Outra moça. Outra comadre. Fiz a abaixadinha e fiz xixi para caralho. Não esperei ninguém voltar. Coloquei a comadre do lado, apaguei a luz, me enfiei na coberta e dormi de novo. Do jeito que deu.


Em algum momento, sonhei que uma moça de branco entrou, acendeu a luz e começou a tirar meus eletrodos. Acordei no meio do sonho, confusa, ainda deitada. Quinze minutos depois, a moça que tinha colado os eletrodos abriu a porta, acendeu a luz e fez exatamente a mesma coisa. Do mesmo jeito. As mesmas falas. A realidade repetiu o sonho, ou o sonho ensaiou a realidade. Ri por dentro. Não tinha mais energia para estranhar.


Quando tiraram tudo, doeu para cacete. A fita puxando. A cera grudada no cabelo. Meu couro cabeludo reclamando em silêncio alto. Saí de lá cheirando a álcool, cera, amaciante e clínica. Voltei para casa antes do sol terminar de nascer.


Minha mãe só dormiu depois que eu cheguei. Dei um beijo nela. Ela beijou minha testa e disse que eu estava salgada. Ri. A Luna me cheirou como se eu fosse eu e não fosse ao mesmo tempo. Igual quando a Saphira volta do veterinário. Ela me olhava tentando entender quem eu era naquele cheiro estranho. Eu ri mais ainda.


Tomei café. O suquinho da clínica não sustentava nada. Água parecia a melhor invenção da humanidade. Comi pão com patê. Planejei banho, ultrassom, raio-x, porque a vida não pausa só porque a noite foi bizarra.


Na volta da clínica, o Uber foi o epílogo caótico. Um senhor de carro chique, porta-malas aberto. Eu pegando a mochila. Ele arrancou com o carro. Puxei a sacola com os travesseiros no reflexo. Ele andou uns bons metros antes de parar para fechar o porta-malas, com cara de bunda. Eu fiquei ali, inteira por pouco, segurando minhas coisas e rindo sozinha.


Cheguei em casa xoxa, capenga, rindo de tudo. Não porque foi fácil. Mas porque acabou. E sobreviver, às vezes, é isso. Juntar os detalhes, rir do absurdo e seguir.


quinta-feira, 4 de junho de 2020

Quando



    Quando você estará pronta para dar início aquele sonho que você sempre teve? E quando você vai se organizar para realizar um de cada vez? O mal do ser humano muitas vezes é querer ter tudo de uma vez e acabar não tendo nada.
Somos seres que comumente nos espelhamos no outro sem querer, e em determinada fase da vida os culpamos por sermos ou estarmos tão parecidos com aquela pessoa e notamos que não temos mais personalidade própria.

    Quando foi que passou a te irritar você se sentir uma marionete? Quando foi que você reparou  que muitas vezes o outro nos molda sem perceber ou por querer? E quantas vezes você percebeu que entrou no modo automático Quando você era criança e brincava do que gostava e passou a brincar do que gostava pouco ou não gostava só por causa do coleguinha?

    Foi ali que você iniciou o modo anônimo na sua vida. Quando você percebeu que parou no tempo com seus sonhos e desejos mais puros, que viraram um objeto cheio de poeira lá no fundo do armário. Quão difícil é tirar de lá, limpar e consertar e fazer voltar a ser o que era antes? Quantas vezes você taxou de preguiça algo que na verdade você tem MEDO?!

Se você parou para refletir após os trinta e poucos e acha que está tarde demais a resposta é não!

Nunca é tarde para se viver uma vida de verdade e nunca é tarde para se viver com a facilidade e a felicidade simples da sua criança interior, nem que seja apenas uma hora por dia. Essa uma hora pode salvar sua vida em todas as particularidades, pois quanto mais você pensa que está no fundo, há ali alguém invisível estendendo a mão a vida toda e você nunca enxergou, pelo simples fato de encher sua mente de “não” e “se” e deixar de lado subir o buraco de um jeito improvável, porém certeiro!

Comece hoje a limpar o ontem, para que o amanhã possa ser tão brilhante ao ponto de você nunca mais descer tão fundo.

04/06/2020 10:13


terça-feira, 28 de agosto de 2018

À VAPOR

E eu vou te amar e te mostrar que sua luz se acende comigo. Aquela chama do fogo, esse que queima e aquece fazendo o tempo parar só pra gente. Esse que faz as tempestades se tornarem calmaria quando nosso olhar se cruza e que te faz suspirar sem entender ao certo como não chegamos antes um pro outro. Nós temos tudo juntos e separados estamos juntos, o mundo gira e meu porto se torna mais seguro a cada dia que passa. Quando você estacionar em mim vai perceber que nada foi parecido antes, aquilo que nós em outros braços e corpos sentimos deixará de fazer sentido nessa hora, a hora que você decidir ficar e pousar no meu peito será o dia mais sublime de nossas vidas.

Blake

segunda-feira, 14 de maio de 2018

A ROSA

Em meu jardim há uma única rosa, a mais linda de todas. Ela contém espinhos, mas nenhum deles pode me arranhar. Esta bela flor que tem o cheiro mais sedutor do mundo, que me faz sorrir todas as manhãs, é responsável por me fazer feliz todas as vezes que a vejo. Quando a toco, quando a beijo o meu dia se torna ensolarado e os dias de escuridão presos em meu coração se vão. Completamente...


Ah como eu adoro vê-la viver, vê-la crescer e renascer todos os dias! 


Blake

ESTRELA

 A poeira de estrela que cai sobre ti faz meus olhos brilharem ao te ver.
 Não deixe essa luz se apagar, e permita que nossa estrela brilhe junto.
 Pois não há nada mais belo que o romance de duas lindas estrelas.

 Você e Eu...


Blake

FRASES

"Se julgarmos o amor pela maior parte dos seus efeitos, ele assemelha-se mais ao ódio do que à amizade." (François de La Rochefoucauld)

"O amor procura os iguais; o ódio, os diferentes." (Albertano da Brescia)

"O amor afirma, o ódio nega. Mas por cada afirmação há milhentas de negação. Assim o amor é pequeno em face do que se odeia. Vê se consegues que isso seja mentira. E terás chegado à verdade." (Vergílio Ferreira)

"O ódio, tal como o amor, alimenta-se com as menores coisas, tudo lhe cai bem. Assim como a pessoa amada não pode fazer nenhum mal, a pessoa odiada não pode fazer nenhum bem." (Honoré de Balzac)

"Amor e ódio estão diante do homem, e o homem não sabe escolher." (Textos Bíblicos)

"Que farás com o ódio, quando com o amor és tão cruel?" (Ovídio)

"Tua conduta provoca ódio; tua beleza provoca amor." (Ovídio)

"Não existe ódio implacável a não ser no amor." (Propércio)